Produção mundial de azeite e posição do Brasil em 2026
Por Luciane Gomes (Dir. Azeites & Olivais)

A produção mundial de azeite apresenta recuperação após duas safras afetadas por seca e temperaturas extremas no Mediterrâneo. Para a safra 2025/2026, o Conselho Oleícola Internacional (COI) estima uma produção de aproximadamente 3,44 milhões de toneladas, redução moderada de 4% em relação às 3,572 milhões de toneladas de 2024/2025. O consumo mundial deverá alcançar cerca de 3,248 milhões de toneladas. Conselho Oleícola Internacional
No Brasil, a safra de 2026 estabeleceu um novo recorde: 1,434 milhão de litros de azeite extravirgem, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Olivicultura — Ibraoliva. O resultado representa crescimento de 496,75% em relação aos 240,3 mil litros de 2025, ano severamente afetado pelas condições climáticas. Também supera em 123,98% o recorde anterior, de 640.228 litros, registrado em 2023. (IBRAOLIVA)
O Rio Grande do Sul permanece como o principal produtor brasileiro. Em 2026, o estado respondeu por cerca de 1,17 milhão de litros, equivalente a aproximadamente 82% de toda a produção nacional. A região da Mantiqueira, envolvendo áreas de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, ocupou a segunda posição, com 250 mil litros. Santa Catarina produziu 10 mil litros, seguida pelo Paraná, com 2,5 mil litros, e pelo Espírito Santo, com 1,5 mil litros. O Rio Grande do Sul reúne aproximadamente 390 produtores e 31 lagares destinados ao processamento das azeitonas e à extração do azeite.
Brasil e mundo
Apesar do avanço expressivo, a produção brasileira está crescendo ano a ano, e comparada ao mercado internacional, de acordo com o Conselho Oleícola Internacional, a estimativa de uma produção mundial de aproximadamente 3,44 milhões de toneladas de azeite na safra 2025/2026, redução de 4% em relação às 3,572 milhões de toneladas do ciclo anterior. O consumo mundial, por sua vez, deverá atingir 3,248 milhões de toneladas. Conselho Oleícola Internacional
Como os dados brasileiros são divulgados em litros e os mundiais em toneladas, é necessário realizar uma conversão aproximada para compará-los. Considerando a densidade média do azeite, a produção brasileira de 1,434 milhão de litros corresponde a cerca de 1,31 mil toneladas.
Indicador | Produção em 2026 |
Brasil | 1,434 milhão de litros |
Brasil — conversão aproximada | 1,31 mil toneladas |
Mundo — safra 2025/2026 | 3,44 milhões de toneladas |
Participação aproximada do Brasil | 0,038% |
Participação do Rio Grande do Sul no Brasil | 82% |
Fonte: Equipe Editorial
¹ Para permitir uma comparação aproximada, foi utilizada densidade de 0,915 kg por litro. O resultado não substitui uma estatística oficial em toneladas. Além disso, o calendário brasileiro não coincide perfeitamente com a safra internacional do COI.
Principais produtores mundiais
Na safra 2024/2025, última com detalhamento consolidado por país divulgado pelo COI, os principais produtores foram:
País | Produção | Participação mundial aproximada |
Espanha | 1.419.000 t | 39,7% |
Turquia | 505.000 t | 14,1% |
Tunísia | 340.000 t | 9,5% |
Grécia | 250.000 t | 7,0% |
Itália | 248.000 t | 6,9% |
Portugal | 177.000 t | 5,0% |
Esses seis países responderam por aproximadamente 82% da produção mundial de 2024/2025. Apenas a Espanha produziu um volume estimado superior a mil vezes toda a produção brasileira de 2026. Os países membros do COI concentraram 95% da produção mundial. Conselho Oleícola Internacional
O retrato da produção brasileira
Apesar de sua participação mundial ainda ser inferior a 0,1%, a olivicultura brasileira apresenta indicadores relevantes de estruturação:
· mais de 620 produtores;
· 77 lagares em funcionamento;
· presença em aproximadamente 280 municípios de oito estados;
· cerca de 10,3 mil hectares de oliveiras plantadas;
· produção nacional de 1,434 milhão de litros em 2026;
· aproximadamente 81% da produção concentrada no Rio Grande do Sul;
· cerca de 7,1 mil hectares plantados no território gaúcho, equivalentes a aproximadamente 69% da área brasileira.
Esses dados foram divulgados pelo Ibraoliva durante a Expointer de 2026.
No recorte territorial, a produção de 2026 ficou assim distribuída:
Região ou estado | Produção |
Rio Grande do Sul | 1,17 milhão de litros |
Serra da Mantiqueira | 250 mil litros |
Santa Catarina | 10 mil litros |
Paraná | 2,5 mil litros |
Espírito Santo | 1,5 mil litros |
Dados: IBRAOLIVA (2026)
Uma análise estratégica
O Brasil ainda não compete com Espanha, Turquia, Tunísia, Itália, Grécia ou Portugal em volume. Sua produção, diante a escala mundial é pequena mas promissora para atender ao mercado interno, que ainda permanece estruturalmente dependente das importações.
Entretanto, medir o setor brasileiro apenas pelo volume seria uma análise incompleta.
Sua possibilidade de diferenciação está em outros atributos:
· produção totalmente voltada ao azeite extravirgem e de excelência;
· extração próxima ao local de cultivo;
· oferta de azeites com frescor durante a entressafra do Hemisfério Norte;
· diversidade de terroirs, trazendo aromas e sabores bem diferentes de acordo com a região e variedade;
· rastreabilidade e aproximação entre consumidor e produtor;
· potencial de integração com gastronomia, turismo rural e olivoturismo;
· posicionamento em segmentos de maior valor agregado.
A alta produção de 2026 confirma o potencial produtivo, mas ainda não demonstra estabilidade estrutural. O crescimento de quase 500% foi calculado sobre a safra excepcionalmente baixa de 2025. A oscilação entre 240,3 mil litros em 2025 e 1,434 milhão em 2026 revela simultaneamente capacidade de expansão e elevada vulnerabilidade climática, trazendo um outro cenário. Qual será a produção de 2027? Qual o cenário para o setor para a próxima safra?
Principais desafios brasileiros
1. Regularidade produtiva: reduzir a forte alternância entre safras.
2. Escala econômica: ampliar a produção com a qualidade já presente.
3. Adaptação climática: desenvolver manejo, cultivares e sistemas adequados às diferentes regiões produtoras.
4. Custos: enfrentar custos elevados de implantação, colheita, processamento e comercialização, impostos altos sem subsídios do governo para a produção interna.
5. Proteção do mercado: fortalecer fiscalização, rastreabilidade e combate à adulteração e à rotulagem irregular.
6. Formação do consumidor: explicar diferenças entre azeite, azeite virgem e azeite extravirgem, valorizando origem, frescor e qualidade sensorial.
7. Integração territorial: transformar olivais, lagares, gastronomia e patrimônio em experiências de olivoturismo e enogastroolivoturismo.
A estratégia brasileira mais coerente não é disputar imediatamente volume ou preço com os grandes produtores mediterrâneos. O caminho está na consolidação de uma cadeia de qualidade, origem, frescor, identidade territorial, inovação e experiência turística.
O recorde de 2026 é um marco importante, mas o verdadeiro avanço ocorrerá quando o Brasil conseguir transformar esse resultado em crescimento regular, ampliar sua presença no mercado interno e construir uma identidade reconhecida para os azeites produzidos em seus diferentes territórios.
O Ibraoliva está investindo na pesquisa para atingir o tão necessário equilíbrio produtivo. Segundo o presidente do Instituto, Flávio Obino, seguimos focados na educação do consumidor para que conheça as diferenças de um verdadeiro extravirgem tanto nos seus aspectos sensoriais quanto para a saudabilidade. Neste cenário, desde o início, apoiamos a adesão do Brasil ao Conselho Oleícola Internacional para que se tenha a oportunidade, como membro e não convidado, de discutirmos com os players internacionais o mercado brasileiro. Existe espaço para azeite virgem e barato produzido no exterior e para o nosso super premium brasileiro no mercado brasileiro, mas não podemos admitir azeite virgem e de baixa qualidade sendo vendido como se extravirgem fosse. Estamos levando ao produtor brasileiro conhecimento técnico através de seminários mensais virtuais. O olivoturismo está no nosso radar e estamos discutindo formas de comercialização conjunta (modelo de cooperativas e marca única é uma das alternativas estudadas), conhecendo melhor o mercado nacional, e não descartando exportações para nichos de consumidores internacionais. Também se inscreve nos nossos projeto a realização de uma campanha nacional de consumo do azeite brasileiros. Os desafios da olivicultura no Brasil e da associação que reúne os produtores de todo o território nacional são enormes, mas aprendemos com as oliveiras a sermos resistentes e combativos.
Produção, território e turismo

Além de agregar valor à agricultura, a olivicultura movimenta diferentes setores da economia. A implantação de olivais e lagares demanda máquinas, serviços técnicos, embalagens, transporte, comércio e mão de obra qualificada. Ao mesmo tempo, abre oportunidades para o turismo rural, gastronômico e de experiências.
No Rio Grande do Sul, especialmente nas regiões do Pampa Gaúcho, vinícolas, olivais, restaurantes, produtores artesanais e empreendimentos turísticos podem formar experiências integradas. Essa articulação fortalece e aproxima o consumidor dos locais de produção e valorizando conjuntamente o vinho, o azeite, a gastronomia e a identidade cultural do território.

A safra de 2026 mostra que a olivicultura brasileira deixou de ser apenas uma atividade experimental, mas que ainda necessita de pesquisas sobre as variedades, sobre o azeite e manejo. Embora o país ainda tenha participação modesta na produção mundial, existe a busca por uma evolução técnica, existe a qualidade destacada dos produtos e a integração com o turismo, demonstram que o setor possui potencial para crescer, substituir parte das importações e gerar desenvolvimento nas regiões produtoras.



