Colheita 2026: território, família e memória viva na Fazenda do Bosque
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- há 19 horas
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A safra 2026 começou na Fazenda do Bosque, em Guaíba (RS), e com ela renasce algo que vai além da produção agrícola: o desejo de ter, novamente, o azeite de oliva extravirgem recém extraído na mesa da família. Mais do que colher frutos, colhe-se história e o resgate as origens.

Guaíba carrega um detalhe pouco lembrado, mas profundamente simbólico: já teve oliveiras plantadas na década de 1950. Houve ali uma semente de cultura que o tempo não apagou. A nova geração de olivicultores, ao plantar e colher novamente, não está apenas investindo em um negócio — está retomando uma memória agrícola do território.
O olival da propriedade, com seus hectares cultivados sob manejo técnico criterioso, é hoje um modelo que integra eficiência produtiva, identidade regional e, sobretudo, participação familiar.
A Revista Azeites & Olivais, juntamente com a família Infanger Lapietra, acompanhou um dia de colheita. Encontramos algo que números e índices não conseguem traduzir completamente: pertencimento.

O ponto certo não é apenas técnico. É sensível.
A definição do momento ideal de colheita continua sendo uma decisão estratégica. Observa-se o estágio de maturação das azeitonas, a coloração da epiderme, o equilíbrio entre compostos fenólicos e rendimento em óleo. Colher cedo pode significar menos volume, mas maior intensidade sensorial, frescor e estabilidade.
Mas há algo que não está nas planilhas: o silêncio do pomar ao amanhecer, o som das azeitonas tocando as caixas, o cuidado quase intuitivo ao manusear cada ramo.

Na Fazenda do Bosque, a colheita é feita com atenção à integridade do fruto e com encaminhamento rápido ao processamento — procedimento técnico essencial para garantir um extravirgem de alta qualidade. Porém, o rigor técnico convive com o gesto familiar, com o olhar atento de quem sabe que está lidando com alimento e legado.
Entre o campo e a mesa
A propriedade se prepara para a visitação em breve, onde produção e experiência caminharam juntas. O visitante não verá apenas oliveiras; compreenderá cultivar, manejo, tempo de extração e características sensoriais do azeite — tudo integrado à gastronomia local.
Esse movimento dialoga com o crescimento do olivoturismo no Brasil, transformando a safra em experiência educativa e cultural. Colher, acompanhar a extração e provar o azeite ainda vibrante, recém-saído do lagar, cria uma conexão direta entre campo e mesa. É o alimento em seu estado mais íntegro.
A força da família
A participação de toda a família na colheita não é figurativa. Ela estrutura o modelo produtivo. A Família Fazenda do Bosque, capitaneada por Rogério Khmayis, compartilha o trabalho entre oliveiras e vinhas, entende o ciclo da natureza e aprende que qualidade começa muito antes da garrafa — seja ela de azeite extravirgem ou de vinho.
Na propriedade, tanto a colheita quanto o processamento das azeitonas são realizados ali mesmo, no próprio espaço produtivo. Esse ponto é central. A extração ocorre logo após a colheita, reduzindo o intervalo entre fruto e lagar, preservando frescor, aromas primários e compostos fenólicos. O controle do processo dentro da própria fazenda assegura rastreabilidade, identidade e padrão de qualidade.
Ao lado do olival, as vinhas da Vinícola Tenuta da Bosque consolidam outra dimensão do mesmo território. A produção de vinhos na própria propriedade reforça a integração entre solo, clima e cultura agrícola. Azeite e vinho nascem do mesmo chão, dialogam entre si e expressam uma mesma paisagem produtiva.
A Família Fazenda do Bosque vive a safra como um ritual anual. Cada caixa colhida carrega esforço coletivo. Cada litro extraído carrega identidade. Cada garrafa engarrafada traduz a vocação agrícola do lugar.
Rogério, cuja origem familiar remete ao Mediterrâneo — berço milenar da olivicultura — carrega no modo de produzir um vínculo que atravessa gerações. Para ele, colher não é apenas etapa produtiva, é continuidade.
“Na minha terra, as azeitonas são colhidas e processadas no mesmo momento. Aprendi desde cedo que tempo é qualidade. Aqui fazemos o mesmo: colhemos e já levamos para extrair. Para as azeitonas de mesa, separo cuidadosamente cada fruto, um a um, resgatando a receita da minha família. É assim que mantemos o sabor e o respeito pela tradição.”
A fala do produtor revela e conecta dois mundos: o ancestral e o contemporâneo a algo essencial: técnica e memória que não competem, mas se completam. O cuidado em reduzir o intervalo entre colheita e processamento preserva frescor e estabilidade. A seleção manual das azeitonas destinadas à mesa reforça textura, integridade e sabor. E o cultivo das vinhas amplia essa mesma lógica de respeito ao tempo e ao terroir.
O mesmo princípio vale para a uva: colher no ponto exato e vinificar rapidamente para preservar expressão varietal e equilíbrio. Tempo, para essas culturas, nunca foi detalhe técnico — foi fundamento.
Ao trazer esse saber para Guaíba — município que já teve oliveiras plantadas na década de 1950 — Rogério não apenas produz azeite e vinho. Ele retoma uma história agrícola interrompida e a projeta para o futuro. Transplanta uma herança cultural mediterrânea e a adapta ao contexto gaúcho, contribuindo para a consolidação da identidade da olivicultura e da vitivinicultura regional.
Oliveiras e vinhas compartilham algo essencial: ambas exigem paciência, visão de longo prazo e relação profunda com o solo. Não são culturas imediatistas. São plantações de continuidade.
No contexto brasileiro, onde a olivicultura ainda consolida sua narrativa, experiências como essa demonstram que técnica e tradição não são opostas — são complementares. A modernização não elimina a memória; ela a fortalece.
E quando azeite e vinho nascem do mesmo território, produzidos e processados na própria propriedade, o que chega à mesa não é apenas produto. É expressão de lugar. É cultura engarrafada.
O azeite como continuidade
A safra 2026 projeta bons resultados, mas seu valor vai além da expectativa produtiva. Ela reafirma três pilares essenciais para o futuro do azeite nacional:
Manejo adequado
Rastreabilidade
Envolvimento humano
Quando a família participa do processo, o azeite deixa de ser apenas produto. Torna-se continuidade, memória e território.
E em Guaíba — onde oliveiras já foram plantadas há mais de setenta anos — colher novamente é também um gesto de reconexão histórica.
O azeite recém extraído que chega à mesa não é apenas alimento. É a prova de que raízes podem ser retomadas. E que tradição, quando cultivada com técnica e afeto, floresce outra vez.
Onde se Hospedar?
Nossa dica
Ibis Guaíba : Rua Dona Frutuosa, 929, Centro, Guaíba - RS, CEP 92500-000

Ou
Ibis Styles: Rua Garibaldi, n. 633, Floresta, Porto Alegre




